Manifesto

Dizem que uns pensam, outros agem.
Mas a verdadeira condição do homem
é a de pensar com suas mãos.
Denis de Rougemont

Se a política, longe de ser reduto exclusivo dos políticos profissionais, é a demanda interminável daquilo que podemos entender como liberdade social de interrelação humana, ela requer a presença de todas as suas partes numa democracia, mesmo que representativa. E mais, nossa força política, antes de ser restringida ao debate de ideias sobre o mundo que disputam sua melhor interpretação e aplicabilidade, é o campo inacabado da ação, ou seja, dos corpos que, ao partilharem um espaço (e não necessariamente um mesmo mundo) precisam estabelecer seus modos de convívio, na medida mesma em que se pode demandar e promover o impossível, o que ainda não se deu. Nesse sentido, a macropolítica não pode se desvincular plenamente de uma micropolítica, do mesmo modo que o intelecto não se distingue plenamente dos afetos, ela exige de nós também uma poética da vida.

Sem vinculação partidária específica, acreditamos que a democracia é um modelo fundamental a ser defendido, sim, mas também a ser construído e reconstruído criticamente

Nesta encruzilhada, um Coletivo Práxis é, então, gesto, movimento de ação (do grego práxis) organizado sob a égide de uma coletividade que não se deseja, nem se apresenta como unidade ou univocidade. Este coletivo, antes de tudo, preza pela possibilidade de partilha de vozes plurais para a construção do que ainda (e sempre) está aberto. Sem vinculação partidária específica, acreditamos que a democracia é um modelo fundamental a ser defendido, sim, mas também a ser construído e reconstruído criticamente; porque a democracia não é um modelo fechado e resolvido; pelo contrário, sua maior força no jogo contemporâneo é precisamente sua indeterminabilidade final como modo e como meio.

Com o recrudescimento do conservadorismo autoritário em várias partes do planeta e também no Brasil, temos visto uma série de batalhas que pareciam ganhas voltarem ao cerne da discussão: inclusão de minorias (de cor, de gênero, de religião, de deficiência etc.), descentramento da ideia de estado-nação, programas de proteção ecológica e climática etc., tudo pode agora se tornar mera opinião, num mundo de pós-verdade que faz do cinismo um modelo discursivo. Pior, as políticas internacionais têm nos mostrado que a fabricação contínua de mentiras, por vezes absurdamente inverossímeis, organiza agora um novo sistema que já não precisa estar vinculado a qualquer realidade partilhável e — mais assustador — não apresenta qualquer pretensão a uma consistência mínima. É nesse campo que algoritmos de redes sociais e correntes de WhatsApp decidem a batalha da macropolítica com a produção de fakenews em série que nem precisam estabelecer um vínculo possível com os fatos, enquanto microfascismos ganham nova força em figuras que parecem centralizar seus anseios até então calados.Nesta encruzilhada, um Coletivo Práxis é, então, gesto, movimento de ação (do grego práxis) organizado sob a égide de uma coletividade que não se deseja, nem se apresenta como unidade ou univocidade. Este coletivo, antes de tudo, preza pela possibilidade de partilha de vozes plurais para a construção do que ainda (e sempre) está aberto. Sem vinculação partidária específica, acreditamos que a democracia é um modelo fundamental a ser defendido, sim, mas também a ser construído e reconstruído criticamente; porque a democracia não é um modelo fechado e resolvido; pelo contrário, sua maior força no jogo contemporâneo é precisamente sua indeterminabilidade final como modo e como meio.

Ainda mais desalentador é perceber que não se trata de um embate que possa ser resolvido por qualquer programa de esclarecimento ou racionalismo; porque o modelo do debate vai naufragando com a episteme que o sustentava. A proliferação de mentiras inverossímeis deixa claro que, se há de fato um irracionalismo em jogo, ele está longe de ser um antípoda de qualquer ideia de um racionalismo salvador. São elas que hoje produzem a verdade e a política; contra elas não basta explicação e informação, contra tudo que elas realizam, temos de agir.

Agora, mais do que nunca, precisamos inventar uma política que seja do embate de mundos possíveis, e ainda mais dos impossíveis

Diante disso, a práxis deste coletivo, sua ação múltipla, é agir no terreno amplo da política, no cruzamento desta com a ética e a estética; é produzir uma variedade de discursos que sejam precisamente um modo da ação, ou um modo de, ao mesmo tempo, defender um espaço que parece ruir diante da brutalidade pura, e fundar um mundo que, como qualquer embate aberto da política, não pode estar estanque. Não podemos nos contentarmos com um debate acerca de um mundo que consideramos decaído, fracassado como política; agora, mais do que nunca, precisamos inventar uma política que seja do embate de mundos possíveis, e ainda mais dos impossíveis.