Quando uma cor cai do céu

Quando uma cor cai do céu

Conheci Lovecraft no pátio central do hospício São Tomé, no interior de Roraima, onde eu estava internada havia mais ou menos dois anos; e justo num dia em que me encontrava extremamente deprimida, pois uma colega, na verdade uma grande amiga, havia recebido alta, e eu, ao que tudo indicava, permaneceria ali sabe-se lá até quando, sozinha.

Lovecraft parece que percebeu esse meu estado de espírito terrível e se aproximou puxando conversa:

— Acha que hoje vai faltar luz?, me perguntou.
— Tomara, lhe disse.
— Sem luz, sem choque elétrico, né?, prosseguiu.
— Verdade!, repliquei.

Esse foi o começo de uma conversa que se seguiu por horas: contei-lhe da minha amiga de quarto, que havia visto Jesus no alto de uma sequoia-gigante. Confessei ao meu amigo que nunca acreditara muito na história dela, pois ela era míope, então não tinha como saber se era mesmo Jesus lá no alto da sequoia… Mas parece que a história era verdadeira, razão pela qual ela recebeu alta e, até onde eu sabia, já estava até empregada.

Perguntei-lhe como havia parado ali, no São Tomé. Ele me contou que um dia fizera um estudo topográfico de uma área no interior da Bahia, para a construção de poços artesianos. Foi então que viu uma cor cair do céu, e “ela sugava a vitalidade das pessoas da região…” Ele nem terminou a frase e o interrompi abruptamente:

— Eu também vi, eu também vi a cor que caiu do céu!

Ele me olhou espantado. Descobrimos que nós dois tínhamos, na mesma região da Bahia, visto uma cor cair do céu, tínhamos presenciado o mesmo fenômeno! Nossas experiências eram semelhantes. Ambos tínhamos alertado a polícia e o exército sobre o fato, mas ninguém nos deu ouvidos, ao contrário, disseram que a cor era uma alucinação e que as pessoas da região eram malandras mesmo, não precisavam de cor nenhuma que lhes “sugasse a vitalidade”. Como insistimos, fomos levados para o hospício.

Bom, o fato é que estávamos insatisfeitos com o tratamento à base de choque elétrico, que considerávamos ultrapassado, além de já ter sido veementemente condenado pela ciência. Desse modo, decidimos fugir juntos!

Num primeiro descuido dos enfermeiros, escapamos por uma fresta da cerca, também elétrica, mas o choque era, naquela altura do campeonato, de menos e, pelo visto, seria o último.

Corremos mata adentro até chegarmos a uma ponte que ligava o Brasil com a Venezuela. Estávamos sobre ela quando vimos, ao longe, o carro do São Tomé. Olhei apavorada para Lovecraft e lhe perguntei:

— De que lado da fronteira estamos?
— Do brasileiro, ele respondeu.

Dei um salto em direção à Venezuela e disse:

— Vamos, vem, depressa! Prefere choque elétrico ou…?.

Nem acabei a frase e Lovecraft deu um salto na minha direção.

Desde então moramos em Caracas, na casa da neta de Gertrud Goldschmidt, Gego, que nos acolheu carinhosamente.

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