Três poemas de Walt Whitman para o presente

Três poemas de Walt Whitman para o presente

O poeta norte-americano Walt Whitman (1819-1892) sempre escreveu diante do presente, respondendo ao que acontecia consigo e com seu país, fazendo da poesia uma arma política de engajamento e ação. Penso, cada vez mais, que a tradução, tanto quanto a escrita de obras novas, tem o dever de encarar essa face de seu dom: tudo é o presente. E, contrariando a lógica aristotélica, se Whitman se dirigia ao presidente James Buchanan em 1860, a tradução agora se dirige a Jair Bolsonaro em 2019. Se os Estados, também em 1860, são parte dos Estados Unidos, agora serão os nossos 26 Estados, junto ao Distrito Federal, na dormência dos anos das últimas três presidências (Dilma, Temer, Bolsonaro). Se a reconciliação entre o Norte e o Sul dizia respeito à Guerra Civil americana, poderá ainda dizer respeito à cisão interna que o Brasil vive, bem como ao persistente preconceito do Sudeste e do Sul contra os o Norte e o Nordeste. Eis o “verbo sobre tudo, lindo feito o céu”.

Guilherme Gontijo Flores

To a President (from By the Roadside)

All you are doing and saying is to America dangled mirages,
You have not learned of Nature—of the politics of Nature, you have not learned the great amplitude, rectitude, impartiality,
You have not seen that only such as they are for these States,
And that what is less than they, must sooner or later lift off from These States.

A um presidente (de Na beira da estrada)

Tudo que você faz e diz são para a América miragens oscilantes,
Você não aprendeu da Natureza — da política da Natureza não aprendeu as grandes amplidão, retidão, imparcialidade.
Você não viu que só elas servem nestes Estados,
Que o que for menos do que elas vai cedo ou tarde vazar destes Estados.

To the States
To Identify the 16th, 17th, or 18th Presidentiad

Why reclining, interrogating? why myself and all drowsing?
What deepening twilight—scum floating atop of the waters,
Who are they as bats and night-dogs askant in the capitol?
What a filthy Presidentiad! (O South, your torrid suns! O North, your arctic freezings!)
Are those really Congressmen? are those the great Judges? is that the President?
Then I will sleep awhile yet, for I see that these States sleep, for reasons;
(With gathering murk, with muttering thunder and lambent shoots we all duly awake,
South, North, East, West, inland and seaboard, we will surely awake.)

Aos Estados
Para Identificar a 16ª, 17ª ou 18ª Presidência

Por que reclinar, interrogar? Por que eu e todos cochilamos?
Que crepúsculo profundo — espuma que boia por cima das águas,
Quem são esses que nem morcegos e cães noturnos de soslaio no capitólio?
Que presidência imunda! (Ah, Sul, teus sóis escaldantes! Ah, Norte, teus frios árticos!)
Eles são mesmo Congressistas; são esses os grandes Juízes? aquilo é o Presidente?
Então eu vou dormir mais um pouco, por ver que os Estados dormem, com razão;
(Com denso breu, com trovão murmurante e cintilantes brotos todo mundo vai despertar,
Sul, Norte, Leste, Oeste, interior e litoral, por certo a gente vai despertar.)

Reconciliation (from Drum-taps)

Word over all, beautiful as the sky,
Beautifuyl that war and all its deeds or carnage must in time be utterly lost,
That the hands of the sisters Death and Night incessantly softly wash again, and ever again, this soil’d world;
For my enemy is dead, a man divine as myself is dead,
I look where he lies white-faced and still in the coffin—I draw near,
Bend down and touch lightly with my lips the white face in the coffin.

Reconciliação (de Rufos)

Verbo sobre tudo, lindo feito o céu,
Lindo que essa guerra e os feitos todos de carnagem com o tempo devem se perder pra sempre,
Que as mãos das irmãs Morte e Noite lavem suave de novo e de novo sem parar este mundo sujo;
Pois meu inimigo está morto, um homem divino como eu está morto,
Olho onde ele jaz de rosto pálido e imóvel no caixão — chego perto,
Me inclino e toco de leve os lábios sobre o pálido rosto no caixão.

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