Contra o muro

Ao perceber que a situação no Brasil degringolava, deixei tudo pronto para uma fuga emergencial. Como não tinha muito dinheiro, comprei um bote inflável de segunda mão e um remo. E quando eu menos esperava, isso me foi útil.

Numa segunda à tarde fui avisada anonimamente de que a polícia iria à minha casa. Não sabia exatamente o que ela queria comigo, mas suspeitei que uma das minhas alunas havia me denunciado. O caso foi o seguinte: numa apresentação de trabalho, ela afirmou que Marx havia sido o responsável pela segunda guerra mundial, e fui obrigada a dizer que ele havia morrido anos antes de a guerra começar, aliás, morrera antes mesmo de ver a primeira guerra começar e acabar, porque, para nosso consolo, um dia tudo acaba. Mas ela insistiu que a culpa era só dele e citou um vídeo do Youtube.

Conclusão, a sua nota não foi muito boa e ela, que havia gravado, pelo que eu soube, um momento pontual da minha aula, justamente aquele em que dizia que “Marx não era culpado pela segunda guerra mundial”, me denunciou.

Não tive dúvida, peguei bote e remo e me enfiei mar adentro. Passei mais de uma semana navegando na mais completa solidão. Certo dia, contudo, vi ao longe um botezinho muito parecido com o meu. Aproximei-me dele e, para a minha surpresa, quem estava lá? Ferreira Gullar!

Perguntei:
— O senhor está passeando, está perdido?
— Fugindo, minha filha, fugindo – me disse esbaforido.
— Ué, o que houve?
— “Poema Sujo”, “Poema Sujo” – respondeu arquejante.
— O senhor está cansado, não quer vir para o meu bote? Remo e o senhor pode descansar. Sabe para onde está indo?
Enquanto ele pulava para o meu bote, respondia entre tossidelas:
— Para longe…para longe…
— Então tá. Estou indo para o mesmo lugar. Descanse um pouco e me conte o que houve.
Ele me contou que queriam prendê-lo porque seu poema incitava à insubordinação.
— Como assim? Insubordinação? – perguntei surpresa.
— Sim! Contra o governo Trump! Cismaram com o verso “mão do sopro contra o muro”.
— Ué! E o que o Brasil tem a ver com isso?
— Ah, minha filha…
Interrompi:
— E o poema não foi escrito lá atrás?
— Sim, mas foi lido hoje.

Enquanto eu remava, Gullar começou a recitar esse e outros poemas dele e, quando menos esperávamos, chegamos sãos e salvos à Ilha da Madeira.

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