Ao invés de armas, educação e diálogo

Ao invés de armas, educação e diálogo

O direito à defesa tem sido utilizado como argumento para a flexibilização do posse de armas no Brasil pelo atual presidente e sua trupe, eleito pelo abominável gesto que transformava mãos em armas. O gesto é deprimente em vários sentidos. Primeiro porque, com mãos imitando armas, transforma todos em inimigos, afinal, o direito à defesa vem desacompanhado da pergunta sobre quem é o perigo. Armados, transformamos todos em ameaça ambulante. A arma nos dá a falsa (e perigosa) sensação de superioridade. Por isso, enquanto se negou a participar de um único debate com seu adversário, pregava o uso da violência e dizia os maiores impropérios contra homossexuais, mulheres, negros e indígenas. Eis os inimigos.

E, por isso mesmo, o gesto é eticamente deprimente porque nega o poder do diálogo. Ora, dialogar é optar pela racionalidade. Quem reivindica o uso de armas, recusa o valor da palavra em nome da força – que quase sempre é a mãe da violência desmedida.

Na prática, a falta de diálogo transforma todos nós em trogloditas. Gente que desconhece a civilidade e evoca sempre, em nome dela, os únicos direitos possíveis, que são os seus. Quem não sabe conversar não sabe o que é respeito ao direito alheio, não tem nenhuma empatia, só empáfia.

Na prática, isso significa que se o teu vizinho está com dando uma festa e o volume da música te incomoda, você já bate armado na porta dele e pode disparar contra ele, motivado pela raiva momentânea. Na escola, um coleguinha que briga com outro no recreio pode ir em casa buscar a arma do pai e disparar contra ele. Contra o professor que ele não gosta também. Contra o pai ou a mãe também. Se alguém não pagou uma dívida, se a tua namorada te traiu, se teu primo falou bobagens contra você… bala neles. Simples assim. Teu filho pode ir pra balada no sábado à noite, desentender-se com alguém e, sem hesitar, buscar a arma para resolver tudo.

E enquanto nos matamos assim, à revelia, os bandidos continuarão bandidos e os policiais estarão na mesma: mal pagos, na maioria despreparados, corruptos e associados ao crime. E o governo estará cumprindo a promessa de campanha, entregando armas para o povo, que matar-se-á feliz, pensando na delícia de calar a boca de alguém com um pedaço de aço. E enquanto a educação morre a míngua, nós não teremos aprendido nada sobre convivência social, sobre o desafio da vida em comum. Desprovidos de ética e gentileza, só nos restará a barbárie daquele gesto. Enquanto enterramos os nossos filhos pensando em nova vingança, que é como fazem nos filmes de faroeste.

Ao invés de mãos imitando armas, mãos se dando em cumprimentos. Ao invés de armas, diálogo.

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