Velázquez - Esopo (Museo del Prado, 1639-41) - Detalhe

A cigarra e a formiga: uma versão tropical

Certa vez me encontrei com Esopo, ele tinha acabado de ser mandado para o olho da rua pelo filósofo Xantos, de quem foi conselheiro por longa data. Com tempo livre e dinheiro no bolso, depois de ganhar uma ação trabalhista contra Xantos, ele resolveu se dedicar à literatura e precisava urgentemente de alguém que colocasse no papel suas historietas.

Como eu tinha perdido meu emprego na universidade onde lecionava Artes Cênicas, resolvi me arriscar nesse novo trabalho, que não era remunerado, mas Esopo dava casa e comida para quem aceitasse a empreitada.

Arrumei as malas e parti. Em seis dias estava na Grécia. A viagem demorou um pouco, porque peguei um voo barato, com três escalas, uma delas em Calcutá. Bom, mas o que interessa é que cheguei à casa de Esopo.

Conversamos um pouco e ele não quis me contratar, mas implorei, falei da situação política no Brasil, da extinção da Faculdade de Artes Cênicas, da perseguição contra os professores etc. e tal. Ele se comoveu.

Começamos com “A cigarra e a formiga”, estávamos nos momentos finais da fábula, quando ele me parou e disse:

– Escreve outra versão, para o Brasil, essa não serve.

E começou a ditar:

“Num dia quente de verão, a cigarra cantava a plenos pulmões, enquanto a formiga juntava grãos para os dias difíceis de inverno.

Vendo que a formiga era trabalhadeira, a cigarra disse:

– Nada te faz parar, nem esse calor infernal. Parabéns!

– Obrigada, por que você não faz o mesmo?

– Cada um com seu fardo, colega, eu canto. Se eu não cantasse, a sua vida seria triste e o seu trabalho mais árduo. Não é mesmo?

A formiga coçou a cabeça e disse:

– Ah, mas nem sempre gosto da sua música. Na verdade gosto de…

– Você não gosta – interrompeu a cigarra –, mas seus colegas gostam. Você tem que pensar no coletivo, na nação! A gente se sacrifica pelo bem geral… Está na Bíblia, minha filha! Ordens de Deus.

A formiga, que trabalhava noite e dia e não tinha tempo de ler, só fez consentir; afinal, contra os desígnios divinos ninguém pode ficar.

Mas chegou em casa e resolveu olhar a Bíblia para ver onde estava escrito isso; ocorre que ela não tinha a Bíblia; então, deixou para lá.

Chegou o inverno e a cigarra, mais que rapidamente, bateu na casa da formiga:

– Vim recolher a sua guarnição em nome de Deus.

– Está tudo aqui, disse a formiga.

E deu tudo para a cigarra, que se fartou de comer no inverno e voltou a cantar no verão, enquanto a formiga morreu à mingua.

Moral da história: Nunca dance conforme a música.

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