Huma Bhabha - We come in Peace

Em vigor desde 1791, a Declaração dos Direitos dos Cidadãos dos Estados Unidos acrescentou dez emendas à Constituição americana (1789). A primeira estabelece que “O Congresso não legislará no sentido de estabelecer uma religião, ou proibindo o livre exercício dos cultos; ou cerceando a liberdade de palavra, ou de imprensa, […]”. De modo que, na terra de Trump, a imprensa age livremente e a liberdade de expressão, apesar das críticas do presidente em exercício, jamais é posta em xeque; afinal, os séculos ajudaram a consolidar esse direito essencial.

Nova York (cidade que resiste a certas ideias de Trump) oferece hoje uma programação cultural altamente política. Entre outubro e novembro, antes das eleições de meio de mandato, no dia 6 de novembro, o público pôde assistir no Metropolitan Museum of Art (MET) à exposição da artista paquistanesa Huma Bhabha (1962 – ), We come in Peace (Viemos em paz), exibida do dia 17 de abril ao dia 28 de outubro deste ano: no terraço do museu duas figuras gigantescas provocam os visitantes, que se perguntam “Quem são essas figuras? Por que estão aí?”. Poder-se-ia dizer que são estrangeiros que assustam os visitantes num primeiro momento, embora estejam paralisados sem poder fazer nada (vieram em paz…). Uma das figuras, chamada de Benaam, que significa “sem nome”, mais parece um corpo morto, uma figura abjeta, que representa o sofrimento humano, numa espécie de denúncia às políticas contrárias ao acolhimento dos imigrantes, exilados, de pessoas sem nome e sem pátria, indo de encontro enfaticamente às ideias do presidente americano.

No Museu de Arte Moderna (MoMA), há uma grande exibição da obra do desenhista e pintor norte-americano Charles White (1918-1979), conhecido por retratar americanos de origem africana. Em 1940, o artista afirmou em uma entrevista que queria pintar murais com a história dos negros, uma vez que esse tema “tem sido infelizmente negligenciado […] porque o branco não conhece a história do Negro, ele não o compreende”. Em 2018, a retrospectiva de White aproxima mais uma vez os brancos (a maioria dos visitantes dos museus) da história e da cultura negra na América, para que o passado, pode-se concluir, não seja esquecido. No Brasil, uma retrospectiva dessa natureza viria em boa hora para entendermos que os negros não se “vitimizam” (termo em voga por aqui), mas na verdade são grandes heróis da resistência. A retrospectiva de White segue até o dia 13 de janeiro de 2019.

Na Brooklyn Academy of Music (BAM), de 31 de outubro a 4 novembro deste ano, foi exibida a ópera Satyagraha, que em sânscrito significa “verdadeira força”, mas cujo termo remete a uma resistência ativa, embora não violenta, do músico minimalista norte-americano Philip Glass (1937 – ). Satyagraha é mais uma das muitas programações culturais em Nova York que fala de minorias. A ópera mostra em quadros a vida de Gandhi, desde de sua visita à África do Sul, quando, ao ser jogado para fora do trem, descobriu que não tinha os mesmos direitos da população branca. A montagem, em colaboração com as companhias Folkoperan e Cirkus Cirkör, traz acrobacias circenses que parecem revelar ainda mais a situação sempre instável das minorias, representadas por artistas equilibrando-se em fios, em bolas, penduradas a metros do chão sempre na iminência de cair.

No mesmo local (BAM), esteve em cartaz, na primeira semana de novembro, Kreatur (Criatura), da coreógrafa alemã Sasha Waltz (1963 – ). Como o próprio título anuncia, no palco, criaturas (nem homens nem mulheres, talvez animais) dançam dentro de casulos e, ao sair deles, descobrem um mundo nem sempre hospitaleiro, com ditadores que impõem regras, não permitem que se expressem. Em grupo, contudo, eles conseguem sufocar a voz autoritária e continuam se conhecendo, se tocando, homens, mulheres, homens com homens (que se beijam no palco), mulheres com mulheres, afinal são criaturas, não sabem quem são e precisam se conhecer. Ao meu lado, na plateia, uma mãe com um filho adolescente, muitos idosos, nenhum protesto e aplausos de pé.

Não poderia faltar a essa programação política Esperando Godot, do irlandês Samuel Beckett. O espetáculo fez parte do “White Light Festival”, que segue até 18 de novembro. A montagem da companhia irlandesa Druid destaca, com muito humor, frases impactantes da peça beckettiana, como “Nada a fazer”, a não ser que Godot, o Salvador, venha; e todos sabem que ele não virá, talvez nem mesmo exista. Ainda assim, seguem paralisados.

Nas livrarias nova-iorquinas, as crianças não ficam de fora da política. Para elas, uma biografia de Trump conta a história do garoto lourinho que nasceu em berço de ouro e chegou aonde chegou, com as ideias que tem. Além dele, outras celebridades da política americana aparecem retratadas em livros, como a feminista Barbara Jordan, líder do movimento dos direitos civis dos negros. Há, ainda, livros sobre a questão de gênero, e uma coleção de bonequinhas feministas para as crianças…

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