Não mexa com meu amigo

Não mexa com meu amigo

É hora de lutarmos não só pela manutenção, mas também pela radicalização da democracia. Nesse amplo movimento, qualquer “tirania da maioria” deve ser fiscalizada e combatida, garantindo voz a todos os grupos minoritários do Brasil.

As populações negras, os quilombolas, os indígenas dentro e fora de aldeias, todo o espectro LGBTQI+, as mulheres ainda sob o risco constante do patriarcado misógino, o Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto (MTST) e o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST) reiteradamente criminalizados, os favelados em estado de exceção interminável, os imigrantes refugiados e discriminados e outras minorias e movimentos sociais estão na linha de frente dessa luta. Elas e eles — que somos quase todos nós — seguem correndo risco, são corpos que importam, vidas que merecem ser vivíveis, com toda dignidade que demandam.

Diante disso, cabe a todos fazermos força de atenção, mobilização, consciência e defesa constante dos direitos e liberdades, num gesto coletivo de união em diferenças, e não de união das diferenças, porque estamos unidos naquilo mesmo que nos difere e não para de nos diferir.
Precisamos hoje fortalecer a luta contra qualquer discriminação, contra qualquer tentativa de criminalização, contra qualquer discurso de ódio ou intolerância que venha crescer; sem medo, sem hesitação. Nesse contexto de violência discursiva e física, política e ética, pública e privada, não podemos nos resignar a chamar de amigo apenas aquela pessoa que está no nosso convívio direto: amiga é toda pessoa que partilha da nossa precariedade, da nossa fragilidade; amigo é todo indivíduo que se abre à construção de uma comunidade aberta, prenhe do vigor dos convívios.

Em 1985, “Touche pas à mon pote” foi o slogan oficial do SOS Racisme, associação francesa, num trabalho de frase e imagem criado por Didier François para defender os jovens de origem africana que sofriam discriminação e violência ao tentarem se integrar na França. É também uma bela canção cantada por Gilberto Gil, que se assumiu engajado nessa luta distante, porque sabia que também dizia respeito aos seus amigos, aos nossos amigos.

Mais que isso, é um mote que precisa ser, ainda inúmeras vezes, retomado, retraduzido, recantado. Recantemos, então, até o impossível.

Converse, manifeste-se, crie, ame, proteja, cuide.

Não deixe que mexam com nossos amigos.

Curitiba, 20 de novembro de 2018, Dia da Consciência Negra.

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