"Poema para ser lido na posse do presidente", de Alberto Pucheu

“Poema para ser lido na posse do presidente”, de Alberto Pucheu

Escrevi “Poema para ser lido na posse do presidente” em 2010, quando, com o desejo de ser um poema público, foi publicado no Caderno Prosa & Verso, do jornal O Globo, no sábado imediatamente anterior ao domingo do segundo turno da eleição do referido ano, que elegeu pela primeira vez a presidenta Dilma Rousseff. Ele termina com “[…] a poesia/ do dedo que falta na mão do presidente”, em referência explícita ao presidente Lula. Depois, o poema foi publicado no livro mais cotidiano que o cotidiano, pela Azougue Editorial, em 2013. Essa leitura foi feita em 17 de novembro de 2018.

Sua feitura se deu sob dois impulsos: 1) na primeira posse de Barack Obama, a poeta negra americana Elizabeth Alexander fora convidada pelo novo presidente a ler um poema inédito feito para a ocasião – perguntava-me eu coisas como: poderia um poema hoje ser dito para todo o mundo?, qual o vínculo hoje entre poesia e política para que aquela estivesse inserida num dos fatos mais representativos do poder do mundo?…; 2) Há uma passagem de Giorgio Agamben, então, muito enigmática para mim, mas que me abria um desejo de desdobramento; em “Projeto para uma revista”, ele afirma: “A coesão originária de poesia e política – que, em nossa cultura, é sancionada desde o início pela circunstância de que o tratado aristotélico sobre a música está contido na Política e o lugar temático da poesia e da arte tenha sido situado por Platão na República – é algo que, para ela [a revista], não é necessário nem mesmo ser colocado em discussão: a questão não é tanto saber se a poesia seria ou não relevante com respeito à política, mas se a política estaria ainda à altura de sua coesão originária com a poesia”.

Com esses enigmas e essas aporias saltitando em mim, escrevi um poema que tivesse a pretensão de ser lido na posse do presidente do Brasil. Como seria um poema que eu fizesse se, como Elizabeth Alexander fora nos Estados Unidos, fosse eu convidado para tal ocasião que se daria em breve no Brasil? Por isso, por essa dimensão pública e declaradamente política do poema, enviei-o ao Caderno Prosa & Verso, que, apesar de tudo, para minha surpresa o publicou.

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