Solo - Poema de Guilherme Gontijo Flores

1

Prado cerrado soterra não tem corpo
a grama cresce em fúria
nos edifícios que ensaiamos
em construir nos edifícios
que preparamos por embasar
sobre edifícios que sonhamos
em erigir para edifícios
que agora tombam

erguido ao céu num rito
alegre das miradas
o AR15 entoa
e sob a cena os pés
acenam as passadas
um garoto acontece
de beijar o céu
excuse me while
a cena acaba

2

Prata encerrada sob a terra não tem cor
a frase é velha vale pouco
perante a cara
que aparece nos jornais
velhacos das agendas
nacionais perante os pastos
que ensaiamos em sonhar

o ouro é preto e explode céu acima
nas gargantas metálicas das mídias
são hoje cento e quantos corpos
correntes nas esquinas
são toneladas de lama
a mesma sobre os rios
águas do rio ninguém bebe mais

3

Uma menina atravessa a esquina
e se concentra enquanto zunem
centigramas de chumbo
asfalto acima rumo a tudo
que ela ainda considera
chamar de terra

são clichês poesia será parca
sob a cena chumbo sem número
dos dias será fraca
diante dos instantes
metralhados nas câmeras será nula
nas feridas dos que expiram
sem sentido

4

A contagem dos corpos segue cega
na foz na fonte e nos estanques
alguém sussurra nomes como
senegal ou beirute ou meros nomes
alguém contou as pilhas pela síria
alguém mal fala porque
os anônimos se amontoam
num canto os anônimos
entoam novos cânticos
numa fumaça
sobem cânticos aos drones
a morte é um mestre em toda a terra
resta o carvão dos corpos

5

Minas não há mais
dali alguém responde minas
nunca houve
daqui alguém replica
o sangue é negro
e corre o sangue
e negro e chega
o sangue corre
e chega o sangue
chega e cantam
o mantra eterno
das religiões
quanto tempo
vai durar
meu choque
o sangue é seco
e sofre o manto
negro das religiões
o sangre é negro
e morre
no mantra seco
das religiões

6

Alguém volta correndo
a cena é lenta
alguém volta correndo
enquanto alguém espera
a cena é mais romântica
jovens que de pretos e pobres
ainda e sempre restam
por pobres e pretos
sempre restam
mesmo que nem tão
pobres e pretos
fuzilados pela polícia
alguém volta correndo
e num enlace envolve o braço
e beija e é beijado
a propaganda é de desodorante
alguém volta correndo
e sai beijado
por ciclones e queimadas
alguém volta correndo
as mãos se tocam num sorriso

7

Paris não é o fim do mundo
a lama explode além
e nunca pode ser a mesma
nunca entraremos na mesma terra
que sobe acesa pelo escapamento
ao raio opaco deste sol

o sol no sal
alguém viu parece
alguma sauna
estalactites no concreto
estalam sobre máquinas
de costura entrelaçando
o nome sweatshop
a loja escorre o mesmo

escolas encerradas
se ocupam por garotos
que ocupam suas tardes
em descerrar as vidas
os corpos ganham corpo
frágil parco vivo
alguém procura por capim

8

Pasto surrado desterra não tem coro
se a lama abraça os braços
todos deste rio se este rio
teima e reteima em desaguar
no mar se nossos peixes
serenam sob as águas
um verso ainda

eu seria mulher da vida
eu corro nas entranhas do dia devagar
eu tenho filhos e não faz sentido
eu seria mulher do mundo
eu leio whitman para os desmembrados da manhã
eu cruzo serras e não faz sentido
eu seria a mulher do fim
eu canto quando a voz se arrasta
eu seria a mulher do fim do mundo
mas a voz não faz não chega à foz
a voz não traz não chega ao rés
a voz

9

Você constata triste
que já dinamitaram
a ilha de manhattan

talvez ainda reste chão

10

Beijamos novamente
as marcas de eldorado
achamos novamente
a terra sem mal
seguimos novamente
à terra de linchamentos

(Poema do livro carvão : : capim, publicado em 2017 pela editora 34).

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